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Brasil Abaixo de Zero

O que está por trás da falta de tempestades nas regiões de Campinas e Piracicaba entre outubro e novembro de 2025?


Erik K. dos Santos
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Desde 18 de outubro, as regiões de Campinas (SP) e Piracicaba (SP), que costumam ser bastante ativas em tempo severo nesta época do ano, vivem uma queda brusca na ocorrência de tempestades severas, e isso não é coincidência.

 

AAO index: observed & GFS forecasts

[Condições da Oscilação Antártica em 21 de novembro de 2025]

 

O principal fator por trás desse comportamento é a Oscilação Antártica (AAO), que permanece em fase negativa desde setembro. Essa configuração trouxe forçante frontal suficiente para eventos severos no início da primavera, como a linha de instabilidade de 22 de setembro, que produziu ventos acima de 100 km/h, e o microburst devastador de Ártemis, em Piracicaba, em 10 de outubro, com rajadas que chegaram a 150 km/h. Mas o efeito causado pelas frentes frias só foi possível pois esses sistemas romperam bloqueios atmosféricos igualmente intensos após uma forte estação seca, marcada por calor de até 37°C.

 

Shelf_Cloud_Piracicaba_2025-09-22_8.jpg

[Supercélula HP de uma linha de instabilidade avançando em direção a Piracicaba no dia 22 de setembro de 2025]

 

Depois do dia 10, o padrão virou. As frentes frias continuaram intensas, mas perderam acesso ao ar quente abundante que costuma alimentar temporais severos na região durante esta época do ano. As máximas dificilmente passavam de 32°C durante o pré-frontal, e vários dias amanheciam sob mesoaltas geradas pelas chuvas da véspera, o que inibia a convecção profunda. O resultado foi uma sequência de situações onde QUASE houve tempestade severa, mas faltou energia.

 

Exemplos práticos:

  • No dia 1º de novembro, uma supercélula ainda conseguiu se formar em Rio Claro, produzindo um microburst com granizo de médio porte. Porém, esse caso foi muito mais dependente da orografia. Em Piracicaba, houve apenas granizo pequeno no extremo norte do município, mas nada excepcional.
  • No dia 2, quando a frente fria finalmente avançou, as tempestades do dia anterior já tinham criado uma “bolha fria”, e o máximo que se registrou foi chuva intensa, o que contrariava as previsões para o dia, que indicavam risco de rajadas de vento intensas e granizo.
  • Em 7 de novembro, uma frente fria intensa associada a um ciclone extratropical gerava preocupação no estado de São Paulo devido à alta capacidade de produzir rajadas de vento severas de até 120 km/h, dado o altíssimo DCAPE. Em 8 de novembro, porém, o sistema chegou de madrugada. Portanto, havia menos energia potencial disponível e, adicionalmente, as próprias células se desorganizavam entre si, limitando o impacto a chuva forte, trovões e rajadas de vento inferiores a 80 km/h.
  • Em 18 de novembro, havia previsão de helicidade altíssima e até potencial para tornados. Porém, a baixa pressão prevista não se formou, a forçante frontal veio fraca e a mesoalta causada pelas chuvas do dia anterior eliminou a chance de tempestades profundas. O resultado foi chuva moderada e ventos moderadamente fortes, nada mais.

 

Alguns ainda dizem: "Mas em outubro de 2023 também houve um excesso de frentes frias e muitas tempestades!" - Porém, naquele ano, o padrão era diferente: a AAO estava positiva. Inclusive, o excesso de frentes frias não tinha relação direta com a AAO, tanto que nem frio fez, algo típico apenas quando a oscilação está negativa. Além do mais, o El Niño permitia máximas constantes acima dos 30°C quase diariamente.

 

Já em 2025, o cenário é outro: a combinação de La Niña com AAO negativa favorece a passagem de muitas frentes frias e, frequentemente, frio tardio, mas praticamente elimina o combustível necessário para tempestades severas. Isso ocorre, pois a grande quantidade de frentes frias seguidas por massas de ar polar significativas dificulta a entrada do ar quente vindo do norte, além de deixar as águas do Oceano Atlântico Sul mais amenas. Assim, a Energia Potencial Convectiva Disponível (CAPE) apresenta valores relativamente menores que os normalmente esperados para a primavera meteorológica.

 

Historicamente, períodos de AAO negativa quase nunca estão associados a grandes episódios de tempo severo em Piracicaba, Campinas e cidades próximas durante a primavera meteorológica, e os eventos de 22 de setembro e 10 de outubro de 2025 foram exceções bem fora da curva.

Edited by Erik K. dos Santos
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