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Reanálise 18-23 de junho de 1933


Em junho de 1933, entre os dias 18 e 23 de junho, um forte pulso de ar frio varreu o interior do Brasil, trazendo marcas espetaculares que vieram a ser o recorde da normal 1930-1960 para o mês. Mas o frio não foi forte somente nas regiões mais continentais, Curitiba e Campos do Jordão registraram neve, como veremos adiante.

A análise foi transcrita em grande parte do artigo As Ondas de Frio na Bacia Amazônica, de Adalberto Serra.

Dia 17/06

No dia 17 de junho existe uma região de frontogênese no Chaco, iniciando a atividade da Frente Polar Atlântica. A pressão tem valores multo baixos. Em conseqüência, são fortes os gradientes de um e outro lado da zona frontogenética, acarretando ventos intensos, tanto polares como tropicais; as chuvas são fracas na Argentina.

No Brasil, a circulação superior está definida pelos ventos normais do anticiclone do Atlântico, ao qual se encorporou urna penetração fria anterior que levara ar polar pela costa norte até a vizinhança.

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Dia 18

No dia 18 de junho, a frente fria caminhou para NE, tendo assim avançado pelo sul do Brasil, onde produziu precipitações. Os ventos aerológicos se mantêm com a circulação normal da alta do Atlantico. Apenas, oriundo, da penetração anterior, encontra-se em Goiás o anticiclone frio já esboçado na carta da véspera e que é a causa das correntes superiores de S em Belo Horizonte. A circulação em Cuiabá permanece ainda de N.

No RS, fez 9°C em Uruguaiana, onde a máxima chegou a 29°C. Em Santa Vitória do Palmar, entre 8°C e 24°C. Porto Alegre tem calor, com mínima de 15ºC e máxima de 30°C. No estado de São Paulo, a máxima atinge 33°C em Santos, 30°C em Ribeirão Preto e 27°C em São Paulo.

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Dia 19

Neste dia, verifica-se um maior progresso da frente fria que se estende agora dede Cuiabá até o Rio de Janeiro. O anticiclone frio é muito vasto com pressões no centro superiores a 780 milímetros, caindo chuvas continuas na costa sul do Brasil, e pequenas precipitações atrás da frente fria em Mato Grosso.

Os ventos superiores são de SW da massa polar, a altura da frente atingindo talvez 3 000 metros no Rio de Janeiro.

O vento em Cuiabá ainda não foi perturbado. Em Belo Horizonte e Vitória continua a soprar a corrente S da depressão superior do anticiclone precedente. No extremo norte a circulação é normal de SE, da massa Equatorial Atlântica, tendo-se restabelecido a monção.

A sondagem meteorográfica de Alegrete, toda realizada dentro do anticiclone, indica massa marítima, não tendo sido alcançado o ar quente superior. Os valores característicos se apresentam aliás muito abaixo da normal. Como a estação se encontra perto do centro de alta pressão, existem duas inversões com queda de umidade, indicativas de subsidência.

Geou em Bagé, onde a mínima chegou a 2°C. Outros destaques: 6°C em São Luiz Gonzaga. A temperatura varia entre 7 e 30°C em Bela Vista/MS, onde choveu 3mm.

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Dia 20

No dia 29 de junho o anticiclone penetrou muito, avançando mais no Interior que na costa, onde a massa fria encontra a grande oposição do centro de ação de Atlântico (massa Ta), o que não acontece a oeste. Estando o centro do ciclone próximo do litoral, o avanço da frente fria é muito pequeno, resultando em chuvas prolongadas. Quanto à isóbara central da alta, fica situada no Chaco, onde a pressão subiu em 3 dias de 747.5 milímetros a 780.0 milímetros.

Os ventos superiores em Porto Alegre sopram de S até 3000 metros; que é o limite do domo frio, notando-se depois as correntes opostas de N da depressão de altitude. Continua a não ser perturbada a circulação de SE do litoral norte. Em Campos, a frente se encontra a 1000 metros, acima desta altura soprando o vento da massa tropical.

A sondagem de Alegrete, na massa polar, é semelhante à do dia anterior, o ar sendo muito frio (-14°C à 3 000 metros) e bastante úmido, dada a sua origem marítima. Já não há indícios de subsidência.

OBS: Os extremos de temperatura da cidade de Rio Grande (16-32.2°C) certamente estão errados. Porém, mantemos os valores conforte oficialmente registrado.

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Dia 21

No dia 21 de junho continua o avanço da frente fria, que agora cobre todo o Brasil, com exceção do litoral norte.

A frente se encontra além de Manaus, o vento girando para S ou SE, e tendo se produzido chuvas frontais no Acre e Amazonas. A depressão continua fixa no oceano, a frente fria permanecendo na costa, com chuvas, e avançando para a oclusão no mar.

Em alto Tapajós a mínima caiu a 8°. A umidade relativa se mantém elevada na massa polar, cuja enorme altura é revelada pelas sondagens, os ventos sendo de S, até além de 3000 metros em Cuiabá.

Nota-se a circulação de setor quente de NE em Caravelas, a qual, juntamente com a dos ventos W e SE em Belo Horizonte e Vitória, indica a localização de um centro depressionário no interior de Minas Gerais. Sob a invasão polar no alíseo, em pleno Atlântico, o vento em Quixeramobim girou aliás para S.

No Sul, apesar do ar seco polar, houve trovoadas em algumas localidades no leste paulista e RJ. A temperatura baixa favoreceu a formação de geada em todo o sul, excluindo o Centro, Norte e Leste de São Paulo. Em São Paulo, a temperatura variou de 4 a 12°C, em Curitiba de 0 a 5°C, com geada à noite e em Aquidauana, no MS, fez 0°C. As mínimas observadas no sul foram por demais baixas.

A neve se fez presente neste evento, inclusive em locais de ocorrência mais difícil, como Curitiba e Campos do Jordão, como mostram os trechos do Jornal do Brasil (crédito: http://meteorologiaeclima.blogspot.com).

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Dia 22/06

No dia 22 de junho, avançou mais um pouco a frente fria no Amazonas, havendo um centro depressionário no Piaui. Os ventos superiores mostram que a altura da massa polar ultrapassa 5000 metros em Curitiba; onde se encontra o centro do anticiclone, cuja pressão, caiu 8 milímetros.

Em Campos e Belo Horizonte, verifica-se bem a passagem para a massa tropical superior de NW através da frente, na altura de 1 500 metros, caindo chuvas continuas no litoral do Brasil. Continuam os ventos de S em Cuiabá, e chove no norte do Amazonas, atrás da frente fria.

Neste dia, foram registrados recordes da normal 1931-1960 em várias localidades. Geou em várias localidades de Minas Gerais. No sul, a temperatura cai ainda mais, e fez bastante frio também em Goiás e Mato Grosso. O tempo ficou instável no litoral de SP e RJ. As mais baixas temperaturas foram em Xanxerê/SC, onde fez -8°C. Fez 8°C em Belo Horizonte, -2°C em Poços de Caldas (com máxima de 10°C), 7°C em Goiás/GO, 0°C em Catalão/GO (com máxima de 15°C), 3°C em Ribeirão Preto, 2°C em São Carlos do Pinhal, 0°C Faxina e -3°C em Curitiba.

Fez 5°C em Formosa/GO, 1,8°C em Cáceres, 1,2°C em Cuiabá, -2°C em Porto Murtinho, 8ºC em Alto Tapajós, 5ºC em Cruzeiro do Sul, 1°C em Franca, -1,2°C em Itajubá/MG e -1,8°C em Monte Alegre de Minas/MG.

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Dia 23/06

Já se nota a encorporação da massa polar aos aliseos no litoral do Nordeste. Aquela cobriu todo o Brasil, e a frente fria já está nas Guianas, tendo dado chuvas na Venezuela e também, por instabilidade do alíseo, na costa de Pernambuco.

Os anticiclones frios são agora em número de dois: o da costa, que irá aos poucos reconstituir o centro de ação, e o do Acre que persiste até a sua final dissolução. Nas estações do sul do Brasil a circulação já é da massa de retôrno Polar, de NE a NW, sôbre a qual sopram os ventos opostos da depressão superior. O mesmo se dá em Cuiabá.

A sondagem de Alegrete confirma a existência de ar polar quente misturado, turbulento, e muito transformado, a sua forte subsidência anterior sendo revelada pela baixa umidade relativa.

Frio persiste forte em regiões de baixada. Piracicaba/SP, por exemplo, registra 2,2ºC.

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Final

O ar muito seco trazido por essa massa de ar polar proporciona grandes amplitudes térmicas no fim de junho na região Centro-Oeste. No dia 27, Bela Vista tem mínima de 6ºC e máxima de 31ºC, enquanto Aquidauana registra espetaculares 1ºC a 31ºC.

É o fim de uma onda de frio histórica, principalmente para o Norte e Centro-Oeste brasileiros.


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