Como alguns de vocês já sabem, entre os dias 5 e 12 de agosto estive de viagem pelo sul da Patagônia argentina, pelas cidades de El Calafate e Ushuaia. E agora trago fotos e um breve relato dessa viagem.   Antes de mais nada, vamos a alguns dados:
EL CALAFATE
El Calafate é uma pequena cidade de pouco mais de 20 mil habitantes fundada em 1927, que fica no oeste da província (estado) de Santa Cruz. As coordenadas são: 50º20'22"S e 72º15'54"O. A média 1961-1990 para julho, o mês mais frio do ano, é de -2,8ºC/4,3ºC. Já janeiro tem médias de 7,7ºC/18,7ºC e a precipitação total anual é de apenas 209,4 mm. Os extremos da cidade foram -17,4ºC (inclusive este recorde é recente, de 2014) e 28,4ºC. A localização no mapa (ponto vermelho. Em azul está Buenos Aires)
 
  Nos dias prévios à viagem, consultei a previsão e indicava -3ºC. Fiquei mais aliviado porque não tenho muita roupa de frio e essa temperatura não seria muito mais baixa do que o que pego em Buenos Aires nos dias mais frios do ano. No dia de embarcar, no entanto, surpresa: Calafate registrava -5,2ºC às 3h.   Embarquei no voo às 5h15 e cheguei pouco depois das 8h. O voo foi praticamente todo sem nada de turbulência (aliás, uma curiosidade: aqui na Argentina algumas pessoas ainda têm o hábito de aplaudir o piloto quando o avião pousa. Mas nas rotas indo e vindo da Patagônia, que quase sempre são complicadas, os aplausos são generalizados). Apesar do horário da viagem, o voo foi inteiro noturno. Isso porque em Calafate amanhece depois das 9h nesta época do ano. Não pude ver nada, infelizmente.
  Chegando no aeroporto, para a minha surpresa, estava nevando. A temperatura era de -4ºC.
    Aquele dia teve uma manhã nublada e com neve fraca. Durante a tarde o tempo foi abrindo aos poucos, mas não foi o suficiente para esquentar: a máxima foi de apenas 1,2ºC (a mínima havia sido de -5,6ºC). A cidade passou o dia coberta por neve.       No fim da noite a temperatura caiu rapidamente. No dia seguinte, dia 6, justo o que mais temia o frio, pois faria uma caminhada acima de um glaciar, o dia amanheceu ensolarado e congelante: mínima de -10ºC. Tomei a van que me levaria ao Perito Moreno. O Perito Moreno é um glaciar imenso. Tem um paredão de gelo de aproximadamente 70 metros de altura e uma superfície de 250 km². Para se ter uma ideia, é maior que a cidade Buenos Aires, que tem 3 milhões de habitantes e tem apenas 203 km². Das passarelas (onde fui na tarde daquele dia) se via assim:
     
É imenso e impressiona o barulho do gelo quando cai, parece que está trovejando. Mas mais incrível ainda foi estar em cima dele. As agências turísticas da região oferecem a caminhada sobre o glaciar, onde se podem ver várias formações de gelo (tinha até caverna de gelo!). Quando fiz a caminhada, estava nublado e o glacial coberto por neve, então não dava pra ver muito o azul do gelo. Mas foi uma experiência incrível por paisagens bem distantes da nossa realidade:                 Neste dia, apesar do sol à tarde, a temperatura não passou de 2ºC.   No dia seguinte, dia 7, novamente um amanhecer muito gelado: mínima de -9ºC (a máxima não passou de 3,2ºC). O aeroporto fechou por névoa e houve problemas com voos nesse dia. Cheguei ao aeroporto por volta das 10h para pegar um voo para Ushuaia, a cidade seguinte da minha viagem. Mas tive uma desagradável surpresa: o voo teve um único overbooking e a única pessoa que não tinha assento marcado (eu, claro) teria que ir depois. Me ofereceram um voo no mesmo horário, mas aqui para Buenos Aires, onde chegaria e meia hora depois embarcaria no voo para Ushuaia. Como não tinha nada lá no primeiro dia, eu chegaria apenas 7 horas depois, e amo voar (ia voar 1h, voaria 6h30) não me pareceu tão grave. Apenas lamentei que perderia a paisagem dos Andes, já que chegaria ao fim do mundo já de noite.   Embarquei e pude ver toda a região de Calafate coberta pela neve:
  O voo chegou a Buenos Aires por volta de 15h45, com uma temperatura de 18ºC (depois de 3 dias com temperaturas sempre de 3ºC pra baixo, parecia verão) e perdi a conexão que faria para Ushuaia. Como já não havia nenhum outro voo para Ushuaia naquele dia, me pagaram transporte, alimentação e hotel e passei a noite em Buenos Aires.   Eis que me lembrei da comunicação que o piloto no voo de Calafate a Buenos Aires fez aos passageiros: "Buenos Aires vai nos receber com tempo ainda estável, com 18ºC, mas são esperadas tormentas para o período da noite". Chequei a previsão e, de fato, parece que ia acontecer o que mais temia: ou o voo atrasaria ou ia ter que decolar (ou chegar, mas no caso era decolar) em meio à chegada de uma clássica frente fria de inverno, com temporais e ventania.   Cheguei ao aeroporto às 2h do dia 8, ainda com temperatura ao redor de 16ºC e condições pré-frontais, mas logo o vento virou. As condições meteorológicas não impediram a decolagem mas, das 3h30 de voo, houve turbulência em mais ou menos 2h15. Aqui por Buenos Aires podia-se ver os relâmpagos do avião (tentei tirar, mas não consegui. A foto abaixo é sobrevoando Buenos Aires).      Depois, o avião seguiu rumo ao sul, sentido contrário do vento, com muita turbulência. Uma breve pausa permitiu o serviço de bordo e novamente houve turbulência, desta vez mais fraca, já chegando a Ushuaia, como sempre. Após 3h30 o avião pousou, aplausos generalizados e, novamente, não consegui ver a paisagem: chegamos às 8h e em Ushuaia também amanhece depois das 9h nesta época (e às 9h59 em junho!).   USHUAIA Ushuaia é a cidade mais ao sul do mundo, com posição geográfica 54°48′26″S e 68°18′16″O. Na verdade, existe um povoado chileno ainda mais ao sul, mas que não chega à categoria de cidade. Ushuaia foi fundada em 1884, sempre tentou ser povoada pelo governo da Argentina (até hoje, inclusive, comento isso no fim do post), conta com aproximadamente 60 mil habitantes (mas parece mais) e atenção para as distâncias: quase 2.500 km de Buenos Aires, mas em torno de 1.000 km da Antártica apenas. Julho é o mês mais frio, com médias de -1,7ºC e 4,2ºC e janeiro é o mais quente, com 5,4ºC a 13,9ºC. Os extremos no aeroporto (que é no meio do oceano) são de -13,9ºC e 27,4ºC. Na estação oficial, que já mudou de lugar algumas vezes, segundo o que li, o recorde é de -21,1ºC para as mínimas e 29,4ºC para as máximas. A média de chuvas é de 529,7 mm por ano.   Aqui devo fazer uma observação: peguei dias bem frios em Calafate, mas é um frio seco e sem vento. Ushuaia não teve temperaturas tão baixas quando fui, mas em compensação a umidade e o vento fazem a sensação térmica ser muito baixa lá. Imaginem que é uma cidade ao nível do mar, sem praticamente nada na frente (exceto umas pequenas montanhas pertencentes ao Chile) e virada pro lado sul.   Outros dados interessantes sobre a região: a Terra do Fogo (estado - ou província, como dizemos aqui, onde fica Ushuaia) é uma ilha meio desconectada do resto da Argentina. Para chegar por terra até lá, primeiro é necessário cruzar a fronteira com o Chile e depois voltar. Além disso, Ushuaia é a única cidade argentina DO OUTRO LADO dos Andes. Que louco, não? Na minha cabeça os Andes estão sempre lá no extremo oeste do continente e nunca me dei conta que terminam ao norte de Ushuaia.     Como dizia, cheguei a Ushuaia de manhã e a temperatura mínima nesse dia no aeroporto foi de -1,5ºC, com máxima de 5,6ºC. Havia nevado muito uns dias antes na cidade. Quando cheguei, já estava derretendo e virando puro barro, mas ainda havia neve. Nesse dia subi até o Glaciar Martial, que está a poucos km do centro de Ushuaia e tem altitude máxima aproximada de 1.000 metros. Subi de carro até mais ou menos 600 metros e lá já era bem mais frio e ainda mais ventoso que na cidade.             À tarde fui a museus e conheci a interessante história da cidade, que foi praticamente toda construída por presos. Tirei umas fotos da área urbana. Há montanhas nas 4 direções:
        No dia seguinte, dia 9, peguei o dia menos frio dessa viagem: mínima de 4,4ºC e máxima de 10,2ºC. Era a excursão mais esperada: a navegação pelo canal Beagle e a promessa de que veria pinguins. Pesquisei bastante nos sites de turismo e praticamente todos diziam que os pinguins migravam para o norte durante o outono e voltavam na primavera. Mas decidi arriscar na empresa que dizia que, no entanto, uma espécie de pinguins ficava por lá.   No caminho vimos o farol e lobos marinhos:       Depois de 2h30 de navegação com o barco a rápida velocidade, já no fim da tarde, chegamos a um lugar remoto chamado Estancia Harberton. De lá trocamos de barco e navegamos por mais 15 ou 20 minutos até a Isla Martillo, onde estariam os tais pinguins.   Baixamos do barco e... não é que estavam mesmo? Eram cerca de 80 pinguins Papua que, segundo os guias, não vão embora porque são mais resistentes ao frio e podem suportar temperaturas de até -40ºC. Na ilha, apesar do sol, havia um vento muito forte e gelado, mas os simpáticos (mas bravos) moradores não pareciam incomodados. Aliás, estavam inclusive voltando tranquilamente da água. Ver pinguins e ainda no habitat natural foi uma das coisas mais legais que já vivi.         No dia 10, que teve temperaturas entre 3ºC e 9,8ºC, fui conhecer o Parque Nacional Tierra del Fuego e o Trem do Fim do Mundo. Havia neve e laguinhos e riachos congelados.         No dia 11 a temperatura esteve mais baixa, variou entre 0 e 6ºC. O dia estava ensolarado e pegamos a Ruta 3 para ir a uma região com lagos (fomos ao Lago Fagnano, que tem quase 600 km², até 200 m de profundidade e está 10% no Chile e 90% na Argentina). Antes passamos por montanhas e um centro de treinamento para o esqui. Nesse centro, a temperatura no momento que passamos por lá era de -7ºC, segundo o guia, que conversou com os administradores do lugar. A vista naquela região era incrível:         Voltamos ao carro e tivemos que atravessar a cordilheira dos Andes. Rapidamente o tempo mudou e uma névoa tomou conta do nosso caminho. Nosso guia nos conta que, devido às mudanças constantes de vento e temperatura na região, a névoa era um fenômeno quase diário na região. Do outro lado da Cordilheira o dia foi inteiro nublado e com muita névoa. Talvez os lagos estivessem mais bonitos no verão, mas com tanta neve, quem quer ver o azul do lago, não é mesmo?
  No caminho para os lagos, havia trechos com muita neve, o que fez com que mudássemos de rota algumas vezes (a altura da neve em alguns trechos chegava até a canela). Cruzamos novamente os Andes, comemos churrasco e, como crianças, os turistas brasileiros e argentinos brincamos na neve.
    No dia 12 acordei cedo para ir para o aeroporto e havia previsão de neve. Infelizmente, não se confirmou: chovia sem parar com 2,6ºC (esses horrores não acontecem só no Brasil! haha). O voo partiu às 9h e pude me despedir vendo a Cordilheira com a luz da manhã.     Alguns comentários:
- Fiquei muito impactado por essa coisa de estar no fim do mundo, de morar gente lá em região com pinguim e a vida seguir normalmente. As pessoas são super adaptadas ao frio e usam roupas normais: calça, blusa e uma jaqueta, como nós aqui em Buenos Aires. Em Calafate os cachorros ficavam passeando o dia todo E DORMIAM EM CIMA DA NEVE. Os cachorros dos meus pais em SP qualquer temperatura de 20ºC estão desaparecidos entre as cobertas já. Meu hamster aqui com 15ºC já quer hibernar. E lá os cachorros dormindo em cima da neve.   - Ainda sobre os cachorros, em Calafate eu andava tão lento pra não escorregar que os eles desistiam de me seguir. Andavam um pouco, me esperavam, eu alcançava. Andavam mais um pouco, esperavam olhando impacientemente pra trás. Até que se cansavam e iam embora.   - Me impressionou a inclinação do sol. Parece sempre fim de tarde. E isso que é agosto, imagina em junho!   - Sobre Ushuaia, é engraçado ver que os pontos de ônibus são fechados de 3 lados e meio pras pessoas estarem protegidas do vento e ler placas como: "CUIDADO: risco de queda de gelo do telhado".   - Durante toda a história da Argentina, sempre tentaram povoar a Patagônia. Inclusive sempre falam em transferir a capital pra lá. Em Ushuaia os moradores não pagam imposto sobre os produtos (mas são caros porque lá é literalmente o fim do mundo e o custo de transporte é altíssimo. Além disso, se for terrestre, ainda enfrenta taxas alfandegárias no Chile). Também não pagam Imposto de Renda. Além disso, como o clima torna a vida mais cara, eles recebem 20% a mais que o resto dos argentinos. Esses 20% se chamam Adicional por ZONA DESFAVORÁVEL. Amo esse nome catastrófico, aliás.   - É uma viagem cara, inclusive pra nós aqui, pela distância - o que encarece as passagens aéreas - e pelo custo de vida lá, MAS VALE A PENA. Quando diziam que valia cada centavo eu duvidava, achava que, no fundo, as pessoas não queriam admitir que gastaram muito e nem foi tudo isso. Mas vale. É incrível, é outro mundo, uma realidade paralela, mas como ainda falam espanhol e usam pesos você tem aquele choque de realidade tipo: "Caramba, a América Latina também é esse clima frio o ano todo e cheio de neve!"   - O passeio sobre o Perito Moreno é uma experiência única. Quando na vida a gente tem oportunidade de andar em cima de um glacial? O mesmo vale para os pinguins. São as duas excursões que vou dizer a todos que não podem faltar.   Obrigado a todos que viram o post. Espero que tenham gostado. O fotógrafo não é dos melhores, o celular é barato e não funcionava direito com temperaturas tão baixas, mas queria dividir com vocês um pouco dessa experiência. E se alguém estiver por ir pra Calafate e/ou pra Ushuaia, podem me escrever que ajudo!